ECONOMIA | Comércio

Novo calendário de pagamento preocupa comércio amazonense
Orçamento familiar e comércio de fim de ano serão prejudicados com o adiamento das remunerações, afirmam especialistas




Salário de novembro foi adiado para dezembro e salário de dezembro foi adiado para janeiro | Foto: Reprodução/Agência Brasil

O anúncio da alteração no calendário do pagamento dos servidores públicos estaduais preocupa não só a classe trabalhadora que teve a remuneração adiada, mas a economia amazonense. Isso porque, sem o salário dos servidores, o comércio de fim de ano e o orçamento familiar desses trabalhadores serão afetados, segundo representantes da classe e economistas. 

Para o presidente da Câmara Dirigente dos Lojistas de Manaus (CDL Manaus), são muitos os fatores a se considerar antes de projetar o impacto que o adiamento de salários terá no comércio do Amazonas. “São várias questões a serem examinadas. Não vão pagar em dezembro e sim em janeiro, mas terá parte do décimo. Será que o comércio tem crescimento para compensar o que vai deixar de pagar, será que a indústria que cresceu 7% nesse período consegue compor para não termos perda e garantir um janeiro melhor para a economia? São muitas perguntas e não posso ‘chutar’ um cenário”, justifica Assayag.

A influência do salário dos servidores na data mais importante do comércio é inegável, como enfatiza o presidente da Associação Comercial do Amazonas, Ataliba Filho. “Toda liberação de décimo, FGTS e afins são fatores que contribuem para o aquecimento do comércio. Elas propiciam o crescimento do mercado, gerando maior demanda e mais contratações, já que o comércio precisa de mais colaboradores para atender esse crescimento de consumo”, diz Ataliba. 

“É de conhecimento que os servidores públicos giram a economia em épocas festivas. Eles não só buscam presentes rotineiros para a família, mas também eletrodomésticos do lar. Quando você muda o calendário, mexe com todo o orçamento da casa”, afirma a presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado do Amazonas (Sinteam), Ana Cristina Rodrigues.

No calendário divulgado no início do ano, o salário de novembro seria pago nos dias 28 e 29, enquanto o de dezembro seria pago nos dias 27 e 30. Com a mudança anunciada, a remuneração de novembro será paga em 3 e 4 de dezembro, e o salário de dezembro somente nos dias 3 e 4 de janeiro. 

Junto com o anúncio da alteração da folha de pagamento, o Governo informou que as datas de recebimento das duas parcelas do 13º salário dos servidores públicos. A primeira parte deve ser paga nos dias 21 e 22 de novembro e a segunda, dias 19 e 20 de dezembro. O montante pago será de aproximadamente R$650 milhões. 

No entanto, para os servidores, esse valor não será suficiente para segurar as contas de dezembro. Um exemplo é o servidor João Batista Ramos da Silva, que vai ter que apertar as contas no fim do ano. “Teremos que pagar as contas com juros e esse gasto não vai ter reposição por parte do governo. Desequilibrou totalmente o orçamento. No Natal, os presentes serão mais baratos, não existe a possibilidade de caprichar mais. Guardar para viagem nem pensar. Não vai ser um final de ano muito alegre”, relata João, que ganha pouco mais de R$4,6 mil por 40 horas semanais de trabalho como professor pelo Estado.

“Sobreviver a conta-gotas"

Para o economista Wallace Pinheiro, a decisão do governo é uma solução temporária que alimenta um ciclo vicioso na economia amazonense. “Quando o governo adia alguns dias o pagamento da remuneração do funcionalismo público, ele cria uma margem para respirar financeiramente. O grande cerne é que estamos em um ciclo vicioso, em que o governo precisa adiar pagamento de folha e não consegue arrecadar em uma economia que não consegue crescer”, explica Wallace.

O economista acrescenta que, ao mesmo tempo que o Governo ganha uma ‘folga’, o fluxo de remuneração de renda sobre a própria economia é adiado. “São mais dias em que o comércio, a indústria, o mercado não consegue movimentar suas atividades. Não é um bom sinal. Se para o governo representa um alívio momentâneo, tem-se o efeito multiplicador negativo para a economia”, declara Wallace, que chama o adiamento de “sobreviver a conta-gotas”.

O Sinteam entrou com ofício para pedir a revogação da mudança de calendário. “Se é para cortar nas questões econômicas, que se corte em outras faturas, não no contracheque do servidor”, defende a presidente do Sinteam. O Em Tempo entrou em contato com a assessoria de comunicação do Governo para uma declaração, mas não obtivemos retorno até o fechamento desta matéria. 




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ECONOMIA  |  19/10/2019 - 22h